A história da Metafísica coincide com a própria história do pensamento ocidental. Em sua acepção mais ampla, trata-se do estudo do “Ser enquanto tal”. Todavia, cada uma das doutrinas ou momentos reflexivos que se dedicaram a essa investigação a revestiram com novas questões e objetos privilegiados. Descrita em suas origens clássicas como uma inquirição do suprassensível que seria o coroamento de todos os esforços das outras ciências (“momento aristotélico”), as investigações metafísicas tornaram-se posteriormente uma irmã siamesa da Teologia e um saber regulador dos demais (“momento tomista”). Em seguida, constitui-se como um saber autônomo, cuja ligação com a Teologia consiste agora em lhe fornecer as bases fundamentais (“momento suareziano”). Num primeiro movimento da Modernidade, a Metafísica é progressivamente dissociada da Teologia e situada, do ponto de vista metodológico, “antes” e não mais “depois” das Física, como o fundamento de todo o saber (“momento cartesiano”). O sucesso da Filosofia natural moderna faz com que se questionem os princípios sob os quais a Metafísica até ali se pautara, de modo que a Física se torna então o modelo metodológico para uma Metafísica que se possa apresentar como ciência (“momento crítico”). Pelo emparelhamento das demais ciências ao “método experimental”, e a incompatibilidade deste para com qualquer conhecimento suprassensível, a Metafísica, enquanto área de investigação, passa a ser vista como uma atividade “não-científica”, i.e., “irracional” ou mera “superstição” (“momento positivista”). Com a proliferação da escola histórica e sua defesa incondicional da relatividade de todo conhecimento, inclusive o científico, a Metafísica é feita somente um artefato da cultura, um relicário de opiniões que cada um trazemos conosco e que, não obstante nos espantem, não podem ser objeto de uma investigação racional.


Apesar disso, inúmeros estudos originais e influentes no pensamento contemporâneo se guiaram por questões metafísicas, alguns para as retomar, outros para as criticar, todos, enfim, para as repensar. Tal seria o caso, por exemplo, d’A Evolução Criadora (H. Bergson), dos Ensaios de Empirismo Radical (W. James), d’As Investigações Lógicas (E. Husserl), do Tractatus Logico-Philosophicus / Investigações Filosóficas (L. Wittgenstein), do Ser e Tempo (M. Heidegger), de Processo e Realidade (N. Whitehead), d’O Ser e o Nada (J-P. Sartre), da Fenomenologia da Percepção (M. Ponty), de Verdade e Método (H. Gadamer), d’A Filosofia e o Espírito da Natureza (R. Rorty), de Palavra e Objeto (W. Quine), de Diferença e Repetição (G. Deleuze), da Gramatologia (J. Derrida), dentre tantos outros. Além do interesse para aqueles que estudam diretamente estes temas, a repercussão destes trabalhos em diversas áreas – Literatura, Linguística, Psicologia, Direito, Biologia, etc – atesta que as questões neles abordadas foram capazes de inocular a cultura e, em alguns casos, conduzi-la por novas direções.


A área de Metafísica, enquanto um fio condutor da própria História da Filosofia, consiste assim num âmbito privilegiado para se estudar tanto as origens do pensamento ocidental, pela retomada de seus mais importantes autores à luz de sua repercussão na ciência e na cultura, quanto para o desenvolvimento crítico das ontologias contemporâneas e sua interação com os demais saberes.